Montagem de elenco no céu
Crônica por Jô Bragança
Dizem que o céu não tem horário de estreia, nem intervalo comercial. Mas hoje, 18 de agosto, imagino que alguma coisa diferente tenha acontecido por lá.
Talvez São Pedro tenha recebido uma ligação:
— Alô? É da produção? Pode preparar a sala de testes. O elenco está chegando.
Primeiro, chamaram Laura.
Não precisaram explicar muita coisa. Laura Cardoso não precisava de apresentação. Afinal, foram mais de sete décadas entrando em nossas casas pela televisão, pelo cinema, pelo teatro, pelo rádio. Uma atriz que não precisava de protagonista para roubar a cena. Bastava aparecer.
E talvez lá no alto alguém tenha dito:
— Pode colocar o nome dela no topo da lista. Essa já vem com currículo pronto.
Laura entrou.
E, como acontece em toda boa produção, alguém perguntou:
— Mas quem vai contracenar com ela?
Foi quando chegou Glória Menezes.
Aí a produção deve ter parado por alguns segundos.
— Ah... agora o elenco está ficando sério.
Glória, com seus mais de 60 anos de carreira, também não precisava fazer teste. Era só abrir o arquivo da memória e encontrar dezenas de personagens, novelas, filmes, palcos e histórias que ajudaram a construir a dramaturgia brasileira.
Talvez alguém tenha perguntado:
— Qual será o papel das duas?
E o diretor respondeu:
— Ainda não sabemos. Mas uma coisa é certa: será uma novela que não terá fim.
Porque há artistas que deixam de existir apenas no corpo, mas continuam vivendo nos personagens.
Laura continuará aparecendo quando alguém lembrar de uma cena de novela e sorrir.
Glória continuará presente quando uma música, uma reprise ou uma velha história trouxer de volta aquela sensação de estar diante da televisão, acompanhando mais um capítulo.
E talvez, lá no céu, exista mesmo uma televisão.
Talvez esteja passando uma novela antiga.
Laura esteja reclamando que a cena poderia ter sido melhor.
Glória esteja rindo.
E, em algum canto, Tarcísio Meira esteja esperando pela sua grande parceira de cena.
Aqui embaixo, ficam o silêncio, a saudade e aquela estranha sensação de que uma parte da nossa infância e da nossa memória também vai embora quando esses artistas partem.
Mas talvez seja justamente aí que a arte faça sua maior mágica.
A morte encerra a participação.
Mas não consegue tirar o personagem da história.
Hoje, o Brasil perdeu duas grandes atrizes em um intervalo de poucas horas.
O céu, dizem, ganhou duas estrelas.
E se realmente estiverem montando uma nova novela por lá, espero que tenham reservado os melhores papéis.
Porque Laura Cardoso e Glória Menezes não foram feitas para figuração.
Foram protagonistas de uma história chamada Brasil.
E essa novela, felizmente, ainda está em cartaz.
Descansem em paz, grandes damas.
O público agradece pelo espetáculo.
Por Jô Bragança
Redação Portal Adonai do Socorro